A fatalidade do 6.
Há três poemas que considero extraordinários na história da literatura portuguesa do século XX. Tres poemas que sairam da pena da imaginação e do sentir dos nervos de tres poetas muitos distintos. Um, da geração de Orpheu, modernista, narcisico e com raivos de egolatria que nos deixou para a posterioridade uma maravilha chamada Quasi: " um pouco mais de sol eu era brasa, um pouco mais de azul eu era alem, para atingir faltou-me um golpe de asa, se ao menos eu permanecesse aquem... (...)". Chamava-se Mario de Sá Carneiro. Outro, escritor, poeta, novelista, contista, critico, dramaturgo, professor, lisboeta, latinista, homem de letras a quem as letras muito devem, paixão de sempre e para sempre, intimo e pessoal, que nos deixou entre outros o Retrato de rapariga (poema que me inspirou a essa grande experiencia chamada ERASMUS). De seu nome David Jesus Mourão-Ferreira. Finalmente, o terceiro, a quem quero dedicar este post. Pintor e Poeta que acreditava ainda no Socialismo, como recordou à uns tempos em entrevista ( "mas não naquele que obra no país"). Representante por excelência do surrealismo português. Mario de Cesariny. Escreveu um dia: Poema, que dizia assim:
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Perdemo-lo hoje, a 26 de Novembro de 2006. Assim como a 26 de Abril de 1916 perdemos Mario de Sá Carneiro e assim como a 16 de Junho de 1996 perdemos David Mourão- Ferreira. Poetas distintos, homens brilhantes, dentro das suas grandezas e medidas, personagens tão diversas como antagónicas, que encontraram na esfera da geografia o sublime de uma poesia escrita em portugues. Encontraram tambem o acaso da morte na fatalidade desse numero 6...
A Poesia, essa... continuamos a encontra-la e a perde-la em todas as ruas para depois a encontrar... Que os bons poemas fiquem sempre entre nós e a memoria dos bons poetas tambem, porque:
" agora posso sonhar até deixar de te ver/ belo rio sem lágrimas" - M.Cesariny.
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Perdemo-lo hoje, a 26 de Novembro de 2006. Assim como a 26 de Abril de 1916 perdemos Mario de Sá Carneiro e assim como a 16 de Junho de 1996 perdemos David Mourão- Ferreira. Poetas distintos, homens brilhantes, dentro das suas grandezas e medidas, personagens tão diversas como antagónicas, que encontraram na esfera da geografia o sublime de uma poesia escrita em portugues. Encontraram tambem o acaso da morte na fatalidade desse numero 6...
A Poesia, essa... continuamos a encontra-la e a perde-la em todas as ruas para depois a encontrar... Que os bons poemas fiquem sempre entre nós e a memoria dos bons poetas tambem, porque:
" agora posso sonhar até deixar de te ver/ belo rio sem lágrimas" - M.Cesariny.


3 Comentários:
sempre tão poética... que bom !
http://www.blog-barbaruiva.com/images/51/L64_0129g.jpg
cesariny = amor, poesia, liberdade!
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