Cambada de Medievais!
Se é verdade que, a nossa a língua (uma amálgama entre o árabe dos mouros, o germânico dos bárbaros, o latim dos romanos e os idiomas falados pela população local), o ensino universitário, o sentimento e as práticas religiosas, entre outras coisas, são traços clarividentes da herança medieval, também é verdade que, em muitos outros aspectos, a nossa época não passa, senão, de um o prolongamento dessa mesma época. Claro está, em tempos e circunstâncias diferentes. Tenho passado todos os dias à frente de Notre Damme e do Museu da Idade Média, duas verdadeiras jóias da coroa parisiense (com diamantes em cima) da época especificada. Ao descer a rua é certo e sabido que me vou deparar com vários pedintes, mendigos, clauchards ou na versão mais actual SDF (pessoas Sem Domicilio Fixo). Numa só palavra, Marginais. Completamente marginais. Sem abrigo, sem comida, sem emprego, sem grandes esperanças nem grandes futuros. Sintomaticamente o cenario transporta-me para a minha ideia de idade média... Exacto, Idade Média. E a minha prespectiva alarga-se. Apercebo-me que hoje, tal como na idade média, o conceito de marginalidade, não se cinge só ao criminoso ou ao ladrão pobre. Hoje, tal como na Idade Média, a marginalidade não é específica de uma ou outra classe social. Ela continua a raiar com a pobreza, mas também se acoita junto dos poderosos e pode estar ao seu serviço. Vejamos: entra-nos por nossa casa dentro, com uma frequência quase diária, notícias de comportamentos à margem tomados por pessoas poderosas e cheias de influência: são reitores, autarcas, dirigentes políticos e desportivos a desviar dinheiro alheio para os seus próprios cofres; levantam-se suspeitas a advogados, médicos, apresentadores, diplomáticos e políticos de exercerem abusos sexuais sobre menores, penduram-se na forca condenados, planificam-se muros (da vergonha) para não deixar entrar mais emigrantes do Sul. Hoje, tal como na idade média, o pobre continua a ser o assalariado explorado, ou então o desempregado iletrado. Hoje, tal como na Idade Média, os velhos, por muito que nos custe a admitir, são marginalizados: sentem na pele uma solidão aguda e sobrevivem com reformas ínfimas. Se a lepra, na Idade Média, servia para atirar um doente para a franja marginal da sociedade, hoje, um seropositivo é, desde logo, condenado, à discriminação e ao preconceito de muitos. O mesmo para os homosexuais.As prostitutas que laboram no nosso país (as de rua ou as “de casa” ) continuam a exercer uma função ilegal , e poucos são os direitos que a sociedade lhes concede. São repudiadas por muitos, e consideradas promíscuas por outros tantos. Se o homem medieval condenava o vício, o homem actual não o deixa de fazer. Se era o jogo e o alcoól os grandes vícios medievais, hoje a esses vícios acrescenta-se o da droga que lança os indivíduos para os mundos da dependência e da marginalidade, assumindo-se cada vez mais como um dos maiores flagelos sociais. Inseridos numa sociedade caracteristicamente global e multicultural continuamos, tal como os medievos faziam com os judeus e os mouros, a não saber tratar com o respeito merecido os “estrangeiros “ que o país vai recebendo. Os estrangeiros que também vão fazendo o país! A cor da pele, o credo ou a cultura ainda são elementos discriminatórios!! E o racismo, transgredidas as portas do século XXI, ainda não está ultrapassado, pelo contrário!! Africanos, asiáticos, brasileiros e indivíduos do Leste debatem-se todos os dias por condições de vida, trabalho e aceitação social mais condignas…(ou “mais cristãs” – como se diria na Idade Média). Claro que não se pode de forma mecânica, transportar para os séculos XII e XIII e XIV (e com maior razão para os anteriores) resultados já obtidos para épocas mais recentes , mas… sinceramente, a nível das mentalidades, por muitos progressos que tenhamos feitos, ainda há tanta coisa a roçar o medieval… (vamos falar do Aborto ou da Pena de Morte?) Para finalizar, umas estrofes pequeninas:"Senhoras, senhores
Deixai-nos passar
Que o carro dos loucos
Está aí a chegar Somos bobos de corte
Somos truões de feira
Somos homens, mulheres
Sem eira nem beira"
Deixai-nos passar
Que o carro dos loucos
Está aí a chegar Somos bobos de corte
Somos truões de feira
Somos homens, mulheres
Sem eira nem beira"
E continuamos....


5 Comentários:
ui...em que foste mexer, minha linda!
na idade média!
já agora...aquilo que refderiste são mais características do que é ser humano do que o que é ser medieval...porque NÃO, a cultura clássica não é cheia de luz, como os homens da modernidade (sécs XVI em diante) nos quiseram fazer acreditar...e NÃO, no séc. XII não se pensava tanto assim.
"mais cristã"?? então se portugal no séc XIII era mais habitado por muçulmanos, judeus e povo pagão do que cristãos (a nobreza e o clero)!! e NÃO, não havia rupturas culturais como se quer fazer pensar...havia circulação de todas as culturas por todo o lado. claro que havia guerras...mas não as há hoje?
uma coisa que disseste, porém, está certíssima: a raíz de muito do que nós somos está na maltratadinha idade média...infelizmente, quase nos esquecemos que todo o seu negrume surgiu no seu fim - séc XIV, XV...
e não referiste a sainte chapelle!
beijinhos!
No post,quem é que maltratou a idade média?lolol Logo eu que sou uma afixionada.. . Aproximações, simplesmente... pois não mencionei, fica um cadinho mais a cima! :)
“ Rodeá-los de silêncio (aos marginais), decerto na esperança de os ocultar também aos olhos de Deus e dos seus anjos (dos poderes sagrados que presidem à ordem do mundo visível), e assim evitar que a sua cólera caísse sobre todo o povo, seria, talvez, uma forma de limitar o seu efeito pernicioso.”
José Mattoso in O essencial sobre a Cultura Medieval Portuguesa (séc. XII a XIV)
eu disse "maltratadinha" não por ter sido maltratada por ti...mas por ser quase sempre a "causa" de todos os males.
anónimo: obrigada pela achega! agora...acreditas que essa atitude é meramente medieval?
é que o que se joga aqui são 2 questões: a 1ª, saber o que é inerente ou não ao Homem: haverá sociedade sem exclusão? aí é preciso ver a antropologia...; a 2ª, é por demais evidente que em qualquer época existem formas de exclusão que no fundo, e de forma até de preservação animal da espécie [não se leia aqui algum tipo de condescendência com essa atitude, apenas uma leitura factual], salvaguardam princípios e mundividências das sociedades dessas épocas. o grande problema, e aí, tânia, tens que me dar razão, é que chamar a alguém de "medieval" continua a ser um insulto, uma forma de chamar desumano e troglodita...repara que estou apenas a constatar - sei que querias dizer que não parece ter havido evolução desde então [e será que houve?], mas o que não deixa de ser engraçada é esta mania que nós [nós = qualquer ser humano pertencente a uma época] temos de nos querer distanciar das épocas passadas e pretender que somos muito diferentes...
de repente, lembro-me do facto de metermos "no mesmo saco" a grécia de "homero" e a de aristóteles como se 400 anos de diferença não fizessem diferença nenhuma. creio que qualquer grego de 306 a.C se acharia muito evoluido em relação aos gregos de 1306 a.C...
ah, como eu gosto destes posts! puxar pela cabecinha sabe tão bem!
*e pobres trogloditas, em última análise, o bode expiatório final!!!
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