sexta-feira, setembro 29, 2006

Uma só multidão.

Há alturas em que me sinto um verdadeiro Pessoa. Hoje é um dessas alturas. Não pelas qualidades poéticas que possuo, mas pelo "drama em gente" que em mim sobrevive. Sinto que preciso multiplar-me para me compensar. Não que a minha vida seja aborrecida. Não. Não que ela seja monótona. Não. Não que me falte alguma coisa de vital, também não. Só porque vive uma só multidão dentro mim... Sei quem sou, ou melhor, encontro a minha definição pelos outros. Sou o que sou nas resenhas que os outros fazem de mim. É muito ridiculo, mas para definir quem sou tenho de ir buscar a homogénica coerência e exactidão da imagem de que os outros fazem de mim..Limitativo, é certo, mas exacto. Como se os outros existissem também para me lembrarem quem sou. Foram os outros que me deram o nome, são os outros que me chamam pelo nome. Mas os outros não sabem que eu também me podia chamar Daniel, Ignnis, Chócó, Pietra, porque todos este nomes vivem em mim... São os outros que me lembram a minha idade. Mas os outros não sabem que entre mim e mim terei sempre 12 anos. São os outros que me dizem que sou sorridente e simpática. Os outros também sabem muitas coisas sobre mim. Sabem que aturo uma data de gente, que gosto de Chopin, melancia e praia. Sabem que estudo Letras e que gosto de Teatro. Sabem que não suporto grão-de-bico, feijão e que nunca danço em estado sóbrio. Os outros tomam-me sempre por consciente, responsável e equilibrada, às vezes por sensível e romântica. E na verdade, os outros não se enganam. A questão é que existe outra verdade, ou outras verdades. E nessas outras verdades eu também sou insensivel e dissimulada, maquiavélica e mórbida. Estridente e descontrolada. Nessas outras verdades os outros nunca desconfiaram que eu até sei dançar sóbria, até consigo suportar o cheiro das favas e que o Outono deixa de ser a minha estação preferida. E se fui eu que me dei a conhecer aos outros, se fui eu que lhes pintei assim o meu retrato, a quem eles devolvem a imagem, então só posso concluir que me ando a omitir e a limitar. A culpa só pode ser minha, mas infelizmente, os outros também, não me deixam ter muito mais retratos. Porque se eu pudesse "tornar publica" todas as personagens que habitam em mim, todos me acusariam de louca ou dissimulada, e na melhor das hipóteses, esquizofrénica. Eu sou um enorme face-face repleto de intermediários... é isso que sou, eu sou o fingimento e a verdade que isso representa. Eu sou a vontade de ser e "sentir tudo de todas as maneiras", eu sou a utopia para que "nada em mim exagere ou exclui". Vejo por entre as partículas e apoio-me na metáfora lúcida do passáro. De um pássaro que se atirou do 11oº andar e caiu no ar, e tal como um guardanapo ficou pairando, pairando, pairando ao sabor do vento sem nunca chegar ao chão, e mesmo que chegasse, chegaria intacto e saíria ileso desse falso vôo: a tentativa de ser ele mesmo.A chatice de sentir uma só multidão em nós, é que às vezes não temos o espaço e o tempo necessários para todos. E nem todos são conciliáveis.. A grande vantagem é que vamos descobrindo tudo com uma enorme facilidade...

Nota: Porque estas coisas de identidade e alteridade costumam roçar o aborrecido e o absurdo e porque os desenhos são muitos mais apelativos e divertidos, aconselho vivamente uma vista de olhos prolongada pelo site do Rui Ricardo:uma multidão divertida e actual pela pena de um artista só!

1 Comentários:

Às domingo, 01 outubro, 2006 , Anonymous Anónimo disse...

Entre pedro, pedrinho, pedrão, pédrrro, Hassan, Mister R.A.G., também eu me sinto uma multidão, melhor umas quantas multidões juntas! Gostei de ver os desenhos do meu cunhadito a acompanhar o texto. Qual o mais parecido com a autora? Tarefa ingloria a de classificar uma multidão com um apenas desenho...

 

Enviar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial