quarta-feira, setembro 27, 2006

Crónica do nono mês: Ramadan

Uma das minhas mais recentes companheiras de residência confessou-me que falhou o primeiro dia do Ramadão. Que foi ha 3 dias. Disse-me que pôs o despertador para as 5h00 da manha, mas que não conseguiu levantar-se para o Su-Hoor, ou o pequeno-almoço antecipado. Disse, num tom desiludido (que depressa passou ao convicto), que não voltaria a acontecer e que hoje e nos dias que se seguem não iria falhar o ritual. Explicou-me que "durante o ramadão, apagamos os nossos pecados" e que por isso mesmo "vale a pena sofrer um bocadinho". E apesar de não fazer as preces durante o resto do ano, o Ramadão, esse, é imperativo. Isto, porque " é o minimo que alguém que se diz muçulmano (e seja saudável) deve fazer". Adiantou-me, que na generalidade, o mais dificil é superar a fome, o vicio da pastilha elastica, e se ainda estiver muito calor, às vezes a sede. Até às 20h não pode ingerir nada. O por-do-sol assim o obriga. E tudo isto dura um mês. Um mês que todos os muçulmanos consideram de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade, de vivência profunda da fraternidade e dos valores da vida familiar, um mês de maior proximidade aos valores sagrados, à leitura mais assídua do Corão, de ida regular à mesquita. Um mês de correcção pessoal e autodomínio. Um mês também, em que nas horas onde a luz solar reina a minha vizinha nao pode pintar as unhas, por perfume, dar beijinhos ao namorado ou cantarolar alegre da vida. E, além de se privar disto, como crente, não deve sequer pensar nestas coisas: o perfeito jejum em pleno dia, para sentir na pele o que o que "os mendigos" sentem: a fome e a falta de afecto. Uma outra maneira de despertar a consciencia para poder ajudar os mais desfavorecidos. Cai a noite e as coisas mudam. A abstenção cede lugar à celebração do Iftar, um jantar a saber a festa e a convivio familiar. É cada vez mais frequente, dizem os entendidos para a admiração de muita boa gente, que muçulmanos ofereçam e celebrem um iftar aos seus amigos, alguns deles de outras crenças. Pois eu confirmo. Fui uma das contempladas com um iftar. Uns amigos tunisinos da minha antiga morada convidaram-me para um iftar. Aceitei de muito boa vontade e com bom grado. Como declinar um convite tão sugestivo? Gostei muito. Aprendi uma data de coisas, saboreei outras tantas e até fumei chicha a saber a maçã. Delicioso. Claro, que não me converti, mas começei a interpretar o Ramadão no mesmo contexto que interpreto a Quaresma ou a Sexta-feira Santa e sobretudo aprendi a respeita-lo, independentemente da crença que me rege. Afinal, esta na fe e fundamentalmente na liberdade de cada um, seguir ou não, prolongar ou não os rituais que nos sugerem... Se o Ramadão é de celebração da fé, nao vejo inconvenienes. Se isso pode trazer alegria e bem estar espiritual até acho muito bem! O importante não é so o fim a que se quer chegar, mas sobretudo os caminhos que escolhemos para alcançar a finalidade. E entendo como finalidade a felicidade. É verdade, que todas as ruas nos levam a todas as ruas, e cada caminho tem paisagens e atalhos diferentes. As vezes perdemo-nos, desorientamo-nos, desmotivamo-nos, as vezes temos de andar kilometros e kilometros para encontrar uma nova placa de orientação. O nosso norte ou o nosso leste. Ha quem prefira caminhar pelas falesias que roçam o mar, ha quem prefira caminhar pelas montanhas que roçam as nuvens, há quem prefira os trilhos rochosos do magma. O caminho devera ser sempre uma escolha nunca uma imposição. Se bem que a primeira das instancias será sempre uma circusntancia. O percurso esse, mesmo que seja solitario, deve ser partilhado, como se partilha um album de fotografias, um diario de viagem. Nao tambem como imposiçao, mas como uma história. É a partilha das paisagens e das vivencias com o nosso interlocutor que constitui a verdadeira riqueza e um dos verdadeiros pilares rumo ao conhecimento e à tolerancia, que tanto tem escasseado ao longo da historia. O nosso cantinho galactico é isso mesmo, uma bola redonda achatada nos polos com uma singela e rica diversidade paisagistica e humana. A ampliação ao diálogo interreligioso, intercultural, interpessoal é meio caminho andado para a Feliz Coabitação entre os Homens. Um cristao, um muçulmano, um budista, um indu, um judeu, um ateu e um agnóstico, sentados a mesma mesa a fumar uma chicha a saber a maça deveria ser uma coisa vulgarissima. Pena que a maior parte das pessoas de deixe levar tanto pelos fundamentalismos e pelo que nos impoe a comunicação social (a questao do Papa e do Perdão, do Mahomed, das caricaturas, dos relatórios americanos que nos ditam numeros de terroristas muitas vezes "inconfirvámeis", tudo isto vende tão bem). Quanto a mim, da proxima vez, vou provar chicha a saber a amora e convidar o Shiang Haiki, outro amigo, a vir comigo. Acho que ele vai gostar. Até lá, tenho a garantia que nos próximos dias não vou ter de levar com do cheiro do verniz das unhas da minha mais recente companheira de residencia. E se querem saber, ainda bem! :)

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