segunda-feira, julho 10, 2006

A raiz do castanheiro

Estava entao ha bocadinho no jardim... A raiz do castanheiro mergulhava na terra, mesmo por baixo do meu banco. Nao me lembrava, porem, que era uma raiz. As palavras tinham-me evaporado e , com elas, o significado das coisas, os seus modos de emprego, os palidos pontos de referencia que os homens lhe traçaram a superficie. Estava sentado um pouco curvado, cabisbaixo, sozinho em frente daquela massa negra e nodosa, completamente em bruto e que metia medo. E depois tive aquela iluminaçao.
Fiquei sem respiraçao. Nunca, antes deste ultimos dias, em tinha presentido o que queria dizer "existir". Era como os outros que passeiam a beira mar nos seus trajos de Primavera. Dizia como eles: " o mar é verde, aquele ponto acolá branco é uma gaivota", mas nao sentia que essas coisas existiam, que a gaivota era uma "gaivota existente"; Geralmente e existencia esconde-se. Está presente a nossa volta, em nos, somos nos,nao se podem dizer duas palavras sem se falar dela, e afinal, nao lhe tocamos. Quando eu julgava pensar nela, é de ver, que nao pensava em nada, tinha a cabeça vazia, ou quanto muito uma palavra na cabeça, a palavra " ser". Ou entao , pensava, " como dizer"?
Pensava na filiação, dizia para comigo, que o mar pertencia a classe dos objectos verdes, ou que o verde fazia parte das qualidades do mar. Mesmo quando olhava para as coisas estava a sem leguas de sonhar que elas existiam. as coisas apareciam-me como um cenario. Pegava nelas. Elas serviam-me de utensilios, previa-se-lhe a resistencia. Mas tudo isto se passava a a superficie. Se me tivessem perguntado o que era a existencia, teria respondido de boa fé, que nao era nada, que era apenas uma coisa vazia que vinha juntar-se as coisas de fora, sem lhe modificar em nada a natureza:
E depois sucedeu aquilo: de repente ali estava, ali estava, claro como a agua. a existencia dera-se subitamente a conhecer. Perdera o seu aspecto inofensivo de categoria abstracta. era a propria massa das coisas, aquela raiz estava amassada em existencia.


J.P.Sartre, A Nausea

1 Comentários:

Às segunda-feira, 24 julho, 2006 , Anonymous Anónimo disse...

Here are some latest links to sites where I found some information: http://google-machine.info/2460.html or http://neveo.info/1577.html

 

Enviar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial